CINEMA, TERRITÓRIO E MEMÓRIA SE ENCONTRAM NO QUILOMBO SÃO JOSÉ DA SERRA COM EXIBIÇÃO DE “O ÚLTIMO DOMINGO”
No domingo, dia 29, o Quilombo São José da Serra, em Valença, recebeu a exibição do curta-metragem O Último Domingo, em uma sessão marcada por afeto, escuta e partilha. A atividade integrou o projeto “Da Palavra à Imagem – Adaptação Literária para o Audiovisual”, que, no dia anterior, realizou uma aula presencial em Barra Mansa, reunindo participantes em um processo formativo que articula literatura, cinema e criação.
Exibido no próprio território onde parte de suas cenas foi filmada, o curta retornou ao quilombo carregado de significado. Algumas das gravações aconteceram na casa de Dona Cida, liderança local e filha de Mãe Tetê, figura fundamental da comunidade, falecida em junho de 2023. A sessão foi realizada na casa de Luciene Estevão, que abriu suas portas para receber a comunidade em um gesto de acolhimento e pertencimento.
Após a exibição, cerca de 30 pessoas participaram de uma roda de conversa conduzida pelo diretor do filme, Renan Brandão, que também atua como professor e formador. O encontro abordou o processo de criação da obra, suas relações com a literatura e, sobretudo, os atravessamentos do tema central do filme, ligado ao empoderamento feminino. “É muito emocionante retornar ao lugar onde o filme foi gravado. Rever essas imagens aqui, junto das pessoas que fazem parte dessa história, amplia completamente o sentido da obra. O cinema ganha outra dimensão quando volta para o território de onde nasceu”, destacou Renan.
A fala encontrou eco na comunidade. Para Luciene Estevão, a narrativa do filme dialoga diretamente com a realidade contemporânea. “A gente se reconhece ali. A personagem fala muito sobre as mulheres pretas de hoje, sobre força, resistência e vida”, afirmou.
A atividade também evidenciou o cuidado com a inclusão e a dimensão social do projeto. Entre os participantes estava Massao Utagawa, residente da Instituição de Longa Permanência Lar dos Velhinhos, de Volta Redonda. Sua presença trouxe uma camada sensível ao encontro, ampliando as trocas entre diferentes gerações. A mediação inclusiva, conduzida pela psicóloga Vivian Fonseca, teve papel fundamental nesse processo. A mediação teve por objetivo ampliar o acesso à experiências sociais a partir de ações culturais. Massao se dedica a assistir documentários e livros, e nesse projeto teve a oportunidade de se deslocar por mais de sessenta quilômetros para assistir um filme em um ambiente acolhedor, marcado pela ancestralidade e sobretudo local da gravação do próprio filme.
Para o produtor Marcelo Bravo, a vivência no quilombo revela a potência do projeto em sua forma mais concreta. “É um momento muito especial, porque aqui conseguimos integrar aquilo que orienta toda a proposta: a ativação do território, a descentralização e as práticas de acessibilidade. Além de uma exibição é um encontro de experiências, saberes e linguagens”, afirmou.
Entre a sala de aula em Barra Mansa e a casa aberta no quilombo, o projeto construiu um percurso que vai da palavra à imagem, mas também da criação ao território, reafirmando a cultura como espaço vivo de formação, memória e transformação
O projeto “Da Palavra à Imagem” foi realizado pela QULT Tecnologias Culturais e Produções Ltda., produtora dirigida por Aline Ribeiro em parceria com Marcelo Bravo da MART.co, com recursos do Fundo Estadual de Cultura, por meio do Edital Literatura do Rio ao RJ – Formação Literária, da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro.
Mais informações estão disponíveis no perfil no Instagram @qult.culturas